Site acessível para cegos o que a lei exige
Quem é cego navega ouvindo o site. Se o código não diz o que é cada imagem, cada campo e cada botão, a página vira silêncio. A lei brasileira trata isso como obrigação, não como gentileza.
A Lei Brasileira de Inclusão, no art. 63, torna obrigatória a acessibilidade nos sites mantidos por empresas com sede ou representação comercial no Brasil, para uso da pessoa com deficiência, conforme as melhores práticas e diretrizes internacionais. O texto não abre exceção por tamanho de empresa. Para quem é cego, isso quer dizer um site que funciona com leitor de tela: imagens com texto alternativo, títulos em ordem, formulários com rótulo e tudo operável pelo teclado.
Neste guia: o que a lei diz · como um cego navega · o que o leitor de tela precisa · erros comuns · como testar · perguntas frequentes
O que a lei diz
A Lei 13.146, de 6 de julho de 2015, é a Lei Brasileira de Inclusão, a LBI. O art. 63 diz que é obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no país ou por órgãos de governo, garantindo à pessoa com deficiência o acesso às informações disponíveis. O parágrafo 1º acrescenta que os sites devem ter o símbolo de acessibilidade em destaque.
A lei não lista requisitos técnicos. Ela manda seguir "as melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente". É aí que entra a norma.
A ABNT NBR 17225, Acessibilidade em conteúdo e aplicações web, foi lançada pela ABNT em 11 de março de 2025. Ela segue as diretrizes internacionais WCAG 2.2, do W3C, e transforma o que a LBI pede em requisitos verificáveis. Norma técnica não é lei. Mas quando alguém precisa dizer se um site segue as melhores práticas, a NBR 17225 é hoje a referência brasileira para responder.
A lei diz que o site precisa ser acessível. A norma diz o que isso quer dizer, item por item.
Como um cego navega num site
A pessoa cega usa um leitor de tela, um programa que lê em voz alta o que está na página. No computador, os mais comuns são o NVDA, gratuito para Windows, e o VoiceOver, que vem nos aparelhos da Apple. No celular Android, o TalkBack. A navegação é feita pelo teclado no computador e por gestos no celular.
O ponto que muda tudo: o leitor de tela não vê a página, ele lê o código. Ele não sabe que aquele texto grande é um título se o código não disser. Não sabe o que mostra uma foto se ninguém escreveu. E não sabe para que serve um campo se ele não tiver rótulo. Quem enxerga não percebe nada disso, porque a página parece perfeita.
O que o leitor de tela precisa
- Texto alternativo nas imagens. Toda imagem que informa algo precisa de uma descrição no código, o atributo alt. "Foto de equipe" diz pouco. "Equipe de quatro pessoas na recepção da clínica" diz o que a imagem mostra. Imagem só decorativa leva alt vazio, para o leitor pular.
- Estrutura de títulos. Quem usa leitor de tela costuma pular de título em título para entender a página, como quem passa os olhos. Para isso, os títulos precisam ser marcados como títulos, um H1 por página e os níveis em ordem, sem pular do H2 para o H4 só por causa do tamanho da letra.
- Rótulos nos formulários. Cada campo precisa de um rótulo ligado a ele no código. Sem isso, o leitor anuncia só "campo de edição" e a pessoa não sabe se deve digitar o nome, o e-mail ou o telefone. O texto cinza de exemplo dentro do campo some quando a pessoa digita e não substitui o rótulo.
- Navegação por teclado. Tudo o que se faz com o mouse precisa funcionar com Tab, Enter e as setas: menu, botões, carrossel, janela de aviso. E o foco precisa ser visível, para quem enxerga pouco saber onde está.
- Contraste. Contraste não ajuda quem é cego, ajuda quem tem baixa visão, e a lei protege os dois. As WCAG pedem uma razão de contraste de pelo menos 4,5 para 1 no texto de tamanho normal. Cinza claro sobre branco quase sempre falha.
Erros comuns que travam o leitor de tela
Texto dentro da imagem. O banner com a promoção, o horário de funcionamento ou o preço escrito na arte é invisível para o leitor de tela. Ou o texto vai para o HTML, ou vai inteiro no alt.
Botão só com ícone. A lupa, o carrinho e o ícone do WhatsApp sem nome no código viram "botão" e nada mais. A pessoa ouve que existe um botão, mas não sabe o que ele faz.
Alt preenchido com o nome do arquivo. "IMG_2034.jpg" ou "banner-home-final" é pior que nada, porque o leitor lê em voz alta.
Menu que só abre com o mouse. Se o menu aparece ao passar o mouse e não responde ao teclado, metade do site fica inacessível para quem não usa mouse.
Como testar o seu site
Comece pelo teste automático. O teste de acessibilidade grátis da Inovaccio roda na página que você colar a mesma auditoria de acessibilidade do Lighthouse do Google, que por trás usa o axe-core. São 66 verificações, separadas em críticas, moderadas e leves. Você recebe uma nota de 0 a 100 e cada achado traduzido para o português, com o ponto da LBI e da NBR 17225 que ele toca. É um raio-x técnico com contexto jurídico, não um parecer de advogado.
Aqui vale ser honesto: teste automático pega parte dos problemas, não todos. Ele encontra o que dá para medir no código, como imagem sem alt, campo sem rótulo, contraste baixo, botão sem nome e página sem idioma definido. O resto depende de gente.
O que o teste automático pega
O que falta no código: alt ausente, rótulo ausente, contraste abaixo do mínimo, link ou botão sem nome, título da página e idioma.
O que só uma pessoa percebe
Se o alt descreve a imagem de verdade, se a ordem de leitura faz sentido e se dá para concluir uma compra ou um cadastro do começo ao fim sem mouse.
O teste que você faz hoje
Guarde o mouse e navegue pelo site só com o Tab. Depois ative o VoiceOver ou o TalkBack no celular e tente fazer a tarefa principal do site de olhos fechados.
O Raio-X de Site também mostra a nota de acessibilidade ao lado das notas de velocidade, SEO e boas práticas, para quem quer ver o site inteiro de uma vez. E se a correção pede mexer na estrutura, o caminho é um projeto de site institucional feito com acessibilidade desde o começo.
Perguntas frequentes
Empresa pequena também precisa ter site acessível?
O art. 63 da LBI fala em sites mantidos por empresas com sede ou representação comercial no Brasil e não faz distinção por porte. Para saber o risco no seu caso específico, converse com um advogado.
A NBR 17225 é obrigatória?
Norma técnica da ABNT não é lei. A obrigação vem da LBI, que manda seguir as melhores práticas de acessibilidade. A NBR 17225 é a referência brasileira que diz o que essas práticas são, por isso seguir a norma é o jeito mais seguro de cumprir a lei.
Um plugin de acessibilidade resolve?
Não sozinho. O leitor de tela lê o código da página, e um botão que aumenta a letra ou muda as cores não escreve o alt que falta nem liga o rótulo ao campo. A correção de verdade é feita no próprio site.